Texto do estudante Inauê Taiguara em resposta aos comentários do jornalista Arnaldo Jabor a respeito das manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo
Que dissabor
“Quem acha vive se perdendo”. Noel Rosa disse isso há mais de 80 anos, porém sua ideia continua atual. Por exemplo, tem comentarista por aí perguntando “o que gera um ódio tão violenta contra a cidade”, comparando o que aconteceu no centro de São Paulo no dia 13 de junho de 2013 com os atentados do PCC. Será que ele não enxerga a diferença existente entre aqueles ataques a cidade e o momento atual, em que as pessoas estão indo as ruas da cidade, e que estas pessoas que se manifestam fazem, ou melhor, elas são parte da cidade. Tal analogia, dita assim, com que assume ares de razão fundamentada, em rede nacional, só pode estar perdido em seus ‘achismos’.
A meu ver, há dois motivos que justificam haverem pessoas que pensam que é por alguns ‘vinténs’ que as pessoas estão indo a rua e se manifestando: ou é por ingenuidade ou é por uma espécie de ‘ignorância política, caracterizada por certa burrice misturada com rancor sem rumo’. Pessoas vão às ruas para pedir condições melhores e mais valorização de cada centavo que ganham.
Há certa ‘nostalgia’ na crença de que ainda se pode depender só da TV para se informar e ter uma opinião fundamentada. Quem assim age ‘vive no passado, na ilusão’. Digo, emissora alguma cobrirá as caras de vergonha que surgirão quando se constatar que as pessoas, hoje, se organizam para reivindicar mudanças e maior participação social nos assuntos públicos independentemente de qualquer partido de esquerda, diferente do que alguns comentaristas ‘acham’, embora afirmem categoricamente. Mas existem ‘achismos’ ainda piores. Chega-se ao ponto de afirmar que não há causa alguma que motive as pessoas a se manifestarem.
Duas coisas são fatos: primeiro, o país considerado amplamente, isto é, além de suas fronteiras, não está paralisado, pelo contrário. E segundo, independente de algumas opiniões presunçosas, de querer enquadrar uma multidão que se manifesta legitimamente em uma única classe social, todos que estavam lá, utilizam diariamente o transporte público. Logo, o aumento as afeta, ainda que seja só de vinte centavos.
Mas isso não é fazer barulho por muito pouco? E a luta contra a PEC 37, como fica?, pergunta o comentarista, Vocês por acaso sabem o que ela é? Ora, enquanto você receia um retrocesso, nós lutamos por direitos ainda sequer alcançados. A violência com que a PM agride movimentos sociais opera de acordo com uma lógica concebida ainda na época da ditadura. Não houve ruptura alguma em sua organização entre os períodos ditatorial e democrático.
É a lógica antiga desta instituição perversa que limita, pelo uso da força, o direito de manifestação que fundamenta a democracia. A polícia precisa e deve se respaldar no interesse público definido pela população (qualquer semelhança a barrar a PEC 37 não é mera semelhança) e não por empresários, que ganham vinte centavos a mais por cabeça que passa a catraca, e que às vezes sequer tem onde apoiar bem os pés simultaneamente. De vinte em vinte centavos os empresários enchem o saco.
Não queremos que ninguém pague vinte centavos a mais, não porque morreremos sem eles, mas por que isto não reverte em nada para ninguém do povo. O transporte não vai melhorar e nem os funcionários serão mais bem pagos. Haverá apenas o esvaziamento dos bolsos mais miseráveis em “vinte míseros centavos”, que para alguns deformadores de opinião, que desconhecem regras básicas de proporção, parece não valer nada.
Porém, creio que mesmo os bolsos mais miseráveis pagariam até vinte centavos, para não ter que ouvir certos comentaristas, que acham que compreendem bem o mundo a partir de sua doxa estreita. Mas mais que isso não, talvez seja melhor desligar a TV mesmo.
Mas, o maior disparate é, ao final, querer dizer qual é o valor de todos aqueles indivíduos que estavam na rua lutando por melhores condições para todos, e orçando tal preço abaixo do valor do aumento. Mais uma vez recorro a Noel Rosa, com sua imortal sabedoria, para lhe alertar “Quem é você que não sabe o que diz? Meu Deus do céu que palpite infeliz”.
Inauê Taiguara, estudante de filosofia.
Inauê Taiguara, estudante de filosofia.
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