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domingo, 16 de junho de 2013

Que dissabor

Texto do estudante Inauê Taiguara em resposta aos comentários do jornalista Arnaldo Jabor a respeito das manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo

Que dissabor
                  
 “Quem acha vive se perdendo”. Noel Rosa disse isso há mais de 80 anos, porém sua ideia continua atual. Por exemplo, tem comentarista por aí perguntando “o que gera um ódio tão violenta contra a cidade”, comparando o que aconteceu no centro de São Paulo no dia 13 de junho de 2013 com os atentados do PCC. Será que ele não enxerga a diferença existente entre aqueles ataques a cidade e o momento atual, em que as pessoas estão indo as ruas da cidade, e que estas pessoas que se manifestam fazem, ou melhor, elas são parte da cidade. Tal analogia, dita assim, com que assume ares de razão fundamentada, em rede nacional, só pode estar perdido em seus ‘achismos’.
A meu ver, há dois motivos que justificam haverem pessoas que pensam que é por alguns ‘vinténs’ que as pessoas estão indo a rua e se manifestando: ou é por ingenuidade ou é por uma espécie de ‘ignorância política, caracterizada por certa burrice misturada com rancor sem rumo’. Pessoas vão às ruas para pedir condições melhores e mais valorização de cada centavo que ganham.
Há certa ‘nostalgia’ na crença de que ainda se pode depender só da TV para se informar e ter uma opinião fundamentada. Quem assim age ‘vive no passado, na ilusão’. Digo, emissora alguma cobrirá as caras de vergonha que surgirão quando se constatar que as pessoas, hoje, se organizam para reivindicar mudanças e maior participação social nos assuntos públicos independentemente de qualquer partido de esquerda, diferente do que alguns comentaristas ‘acham’, embora afirmem categoricamente. Mas existem ‘achismos’ ainda piores. Chega-se ao ponto de afirmar que não há causa alguma que motive as pessoas a se manifestarem.
Duas coisas são fatos: primeiro, o país considerado amplamente, isto é, além de suas fronteiras, não está paralisado, pelo contrário. E segundo, independente de algumas opiniões presunçosas, de querer enquadrar uma multidão que se manifesta legitimamente em uma única classe social, todos que estavam lá, utilizam diariamente o transporte público. Logo, o aumento as afeta, ainda que seja só de vinte centavos.
Mas isso não é fazer barulho por muito pouco? E a luta contra a PEC 37, como fica?, pergunta o comentarista, Vocês por acaso sabem o que ela é? Ora, enquanto você receia um retrocesso, nós lutamos por direitos ainda sequer alcançados.  A violência com que a PM agride movimentos sociais opera de acordo com uma lógica concebida ainda na época da ditadura. Não houve ruptura alguma em sua organização entre os períodos ditatorial e democrático.
É a lógica antiga desta instituição perversa que limita, pelo uso da força, o direito de manifestação que fundamenta a democracia.  A polícia precisa e deve se respaldar no interesse público definido pela população (qualquer semelhança a barrar a PEC 37 não é mera semelhança) e não por empresários, que ganham vinte centavos a mais por cabeça que passa a catraca, e que às vezes sequer tem onde apoiar bem os pés simultaneamente. De vinte em vinte centavos os empresários enchem o saco.
Não queremos que ninguém pague vinte centavos a mais, não porque morreremos sem eles, mas por que isto não reverte em nada para ninguém do povo. O transporte não vai melhorar e nem os funcionários serão mais bem pagos. Haverá apenas o esvaziamento dos bolsos mais miseráveis em “vinte míseros centavos”, que para alguns deformadores de opinião, que desconhecem regras básicas de proporção, parece não valer nada.
Porém, creio que mesmo os bolsos mais miseráveis pagariam até vinte centavos, para não ter que ouvir certos comentaristas, que acham que compreendem bem o mundo a partir de sua doxa estreita. Mas mais que isso não, talvez seja melhor desligar a TV mesmo.
Mas, o maior disparate é, ao final, querer dizer qual é o valor de todos aqueles indivíduos que estavam na rua lutando por melhores condições para todos, e orçando tal preço abaixo do valor do aumento. Mais uma vez recorro a Noel Rosa, com sua imortal sabedoria, para lhe alertar “Quem é você que não sabe o que diz? Meu Deus do céu que palpite infeliz”.

Inauê Taiguara, estudante de filosofia. 

sábado, 15 de junho de 2013

Carta aberta aos detentores do monopólio da violência institucionalizada

Este texto tem como alvo - no melhor e mais pacífico sentido da palavra - todos os policiais, agentes de segurança e soldados, assim como as pessoas que lhes dão as ordens, em todos os níveis de hierarquia. Dirijo também essas palavras a todos e todas que se encontrem, ou tenham se encontrado em qualquer momento da vida, em qualquer espécie de relação de autoridade e em qualquer posição dentro desta relação. Em suma, a absolutamente todas as pessoas:


Colocar-se no lugar do outro é uma coisa muito, mas muito difícil. É impossível, na verdade, uma vez que seja qual for o acesso que tenhamos às ideias alheias, sera sempre um acesso muito limitado em relação ao conhecimento que temos de nossas próprias ideias. Quero dizer, não importa o quão intimamente eu conheça uma pessoa, jamais saberei o que realmente se passa pela sua cabeça. 

É justamente por causa desta impossibilidade que devemos exercitar a nossa capacidade de entender o outro, afim de tornar o nosso julgamento tão objetivo quanto for possível. Eu nunca saberei, por exemplo, o que pensam os meus pais, minha namorada ou meus amigos e amigas. Mas quando faço esse esforço de compreensão, quando levo em conta as origens de seus pensamentos, é aí que a verdadeira discussão, o verdadeiro debate – no melhor sentido dos dois termos – começa. Estou convencido de que a disposição mútua de compreender o outro lado é condição sine qua non para um verdadeiro debate de ideias. Digo ainda que, por se tratar de um certo esforço, que exige uma certa atenção, é normal que, por vezes, nos fechemos demais em nossa própria visão. É por isso que mesmo as pessoas que tem relações mais íntimas entre si acabam, às vezes, discutindo de forma mais acalorada e até recorrendo a xingamentos.

Porém, ainda que tal desatenção seja natural – o que não significa que não deva ser constantemente alvo de ponderação e crítica – existem diferentes contextos nos quais certas atitudes são ou não são aceitáveis. Por exemplo, é possível que duas pessoas que vivem na mesma casa acabem se exaltando em uma discussão sobre o uso de determinado cômodo da casa. Assim como é comum que casais deixem um pouco a razão de lado quando discutem certos aspectos da relação. Mas existem certas situações que não admitem nem as menores doses de imprudência. Em uma sala de aula com alunos de 10 anos, por exemplo, o(a) professor(a) não pode se exaltar e gritar com as crianças que conversam durante uma explicação na aula. Isso por dois motivos:
Em primeiro lugar, porque não faz o menor sentido julgar as ações de uma criança de 10 anos da mesma maneira que se julga as ações de um adulto. Há de se levar em conta o fato de aquelas crianças terem uma percepção do mundo completamente diferente da nossa.
Em segundo lugar, o(a) professor(a) tem autoridade sobre aquelas crianças. Esta pessoa é designada para, além de ensinar, limitar de certa forma as ações daquelas crianças. Elas não podem, por exemplo, optar por sair da aula e irem para casa, assim como não podem jogar tinta nas paredes da sala ou, ainda, gritar descontroladamente. É desnecessário tentar pensar em tudo que uma criança não pode fazer dentro de uma sala de aula, já que a lista se prolongaria demais.

O que importa é que nesse caso, a pessoa que detém o poder de limitar a liberdade das outras pessoas não pode abandonar a racionalidade de seu julgamento e não pode ignorar – tanto por opção quanto por negligência – a perspectiva de cada uma daquelas pequenas pessoas.
Este exemplo, da relação professor-aluno, é o mais imediato e fácil de entender,já que tanto a relação de autoridade quanto a diferença de percepção do mundo entre as duas parte ficam nítidas. Mas o princípio vale para qualquer caso em que duas partes de um debate não estejam em igualdade de posições, ou seja, vale para qualquer caso em que há uma relação vertical, de dominação, de uma parte sobre outra.

Partindo deste princípio, decidi que tentaria, com toda a serenidade possível, refletir sobre certas ações da Polícia Militar, em especial nos recentes protestos contra o aumento da tarifa de ônibus, mas não restrito a apenas essas ações.

Me lembro de ter crescido assistindo, além dos desenhos, alguns filmes. Eu gostava de filmes de ação, aventura, daqueles que mexem com a adrenalina. A imagem do herói, nobre e honrado, utilizando todos os meios possíveis para salvar os inocentes, sempre foi muito presente em tais filmes. Apesar da total ausência de verossimilhança – já que nesses filmes é muito comum um grupo composto por 2 a 5 pessoas sair vencedor de um confronto com grupos muitíssimo maiores –, aquela figura do herói era algo admirável, chegando ao ponto de personificar um ideal. Os “mocinhos” são quase divindades. Nesse contexto, não é de se estranhar que tantas pessoas admirem, como eu admirei por muito tempo, essa figura heróica. Também não é nada estranho que muitos queiram tornar-se a própria figura do herói. Tal figura já é impactante nos filmes, mas é nos noticiários que ela ganha vida. Este relato é bastante revelador.

Quando uma pessoa arrisca a própria vida pela segurança de outra, é um ato louvável. Mesmo.
E eu acredito que seja este o motivo que leva muitos a escolherem a farda como seu uniforme de trabalho. Eu não acredito que os policiais sejam seres cheios de ódio por natureza. Isso seria acreditar que as pessoas tem uma essência intrinsecamente boa ou má, o que é exatamente o contrário da minha opinião. Acredito, sinceramente, que muitos, quando tomam a decisão, pretendem salvar vidas e garantir a segurança geral.

Mas, infelizmente, não é isso que a Polícia vem fazendo. Nem de longe, aliás. Infelizmente, ao longo do processo de decisão, do treinamento e da guerra diária que vivem os policiais, esta perspectiva vai se perdendo. O ódio tem o nefasto poder de alimentar-se de si mesmo. O princípio da conservação de energia não vale para ele. O ódio se cria e recria a todo instante, na medida em que, a cada confronto violento, o desejo por violência aumenta. E com ódio transbordando pelos poros, a possibilidade de refletir calmamente sobre qualquer situação é nula. E o ódio, quanto mais cresce, menos seleciona seus alvos. Isso pode ser observado até mesmo nos casos mais moderados: quem nunca descontou em uma pessoa querida a raiva gerada por um dia ruim? Ainda, quem nunca foi a tal pessoa querida que sofre com essa raiva? Ou presenciou algo parecido?

O ódio, inibindo a nossa capacidade de reflexão, jamais é benéfico. Jamais. Pode-se argumentar que em certos casos o ódio da forças, como quando impele o soldado na guerra. Argumento que, nesses casos, o que move e dá forças não é o ódio, mas o sentimento de indignação, a vontade de justiça, o medo de um mal maior, a proteção às pessoas queridas. É o que fica nítido em protestos e manifestações por melhores e mais justas condições de vida: aqueles que protestam, indignados, gritam, resistem como podem – quando resistem. Além disso, pedem e oferecem ajuda, choram, correm, se dispersam. Sentem, no peito e no estômago, algo que não cabe em si, o grito que precisa sair. É o que eu não consigo parar de sentir nos últimos dias.

Do outro lado, o da polícia, o ódio salta aos olhos. Isso porque o ódio torna o ser humano frio, maquinal. E é particularmente assustador como esses soldados conseguem olhar nos olhos de pessoas sentadas e desarmadas e desferir, a queima-roupa, tiros de balas de borracha. Como conseguem, sem culpa, fazer com que milhares de inocentes troquem, contra a vontade, o oxigênio por gás lacrimogêneo. Como conseguem marchar ordenadamente batendo nos próprios escudos – e não deve haver ato mais simbólico, mais sintomático.

Enfim, antes de mais nada, esta é uma tentativa de lembrar a todos que, independentemente do seu cargo e função, o que determina as suas ações é a sua razão, o seu senso de justiça. E não posso acreditar, não consigo e não quero acreditar, que cenas como Estas pareçam justas aos olhos de quem atira.

Quem se comporta como máquina está sendo operado como uma. Não sejam máquinas.