Este texto tem como alvo - no melhor e mais pacífico sentido da palavra - todos os policiais, agentes de segurança e soldados, assim como as pessoas que lhes dão as ordens, em todos os níveis de hierarquia. Dirijo também essas palavras a todos e todas que se encontrem, ou tenham se encontrado em qualquer momento da vida, em qualquer espécie de relação de autoridade e em qualquer posição dentro desta relação. Em suma, a absolutamente todas as pessoas:
Colocar-se no lugar do outro é uma coisa muito, mas muito difícil. É impossível, na verdade, uma vez que seja qual for o acesso que tenhamos às ideias alheias, sera sempre um acesso muito limitado em relação ao conhecimento que temos de nossas próprias ideias. Quero dizer, não importa o quão intimamente eu conheça uma pessoa, jamais saberei o que realmente se passa pela sua cabeça.
Colocar-se no lugar do outro é uma coisa muito, mas muito difícil. É impossível, na verdade, uma vez que seja qual for o acesso que tenhamos às ideias alheias, sera sempre um acesso muito limitado em relação ao conhecimento que temos de nossas próprias ideias. Quero dizer, não importa o quão intimamente eu conheça uma pessoa, jamais saberei o que realmente se passa pela sua cabeça.
É justamente por causa desta impossibilidade que devemos exercitar a nossa capacidade de entender o outro, afim de tornar o nosso julgamento tão objetivo quanto for possível. Eu nunca saberei, por exemplo, o que pensam os meus pais, minha namorada ou meus amigos e amigas. Mas quando faço esse esforço de compreensão, quando levo em conta as origens de seus pensamentos, é aí que a verdadeira discussão, o verdadeiro debate – no melhor sentido dos dois termos – começa. Estou convencido de que a disposição mútua de compreender o outro lado é condição sine qua non para um verdadeiro debate de ideias. Digo ainda que, por se tratar de um certo esforço, que exige uma certa atenção, é normal que, por vezes, nos fechemos demais em nossa própria visão. É por isso que mesmo as pessoas que tem relações mais íntimas entre si acabam, às vezes, discutindo de forma mais acalorada e até recorrendo a xingamentos.
Porém,
ainda que tal desatenção seja natural – o que não significa que
não deva ser constantemente alvo de ponderação e crítica –
existem diferentes contextos nos quais certas atitudes são ou não
são aceitáveis. Por exemplo, é possível que duas pessoas que
vivem na mesma casa acabem se exaltando em uma discussão sobre o uso
de determinado cômodo da casa. Assim como é comum que casais deixem
um pouco a razão de lado quando discutem certos aspectos da relação.
Mas existem certas situações que não admitem nem as menores doses
de imprudência. Em uma sala de aula com alunos de 10 anos, por
exemplo, o(a) professor(a) não pode se exaltar e gritar com as
crianças que conversam durante uma explicação na aula. Isso por
dois motivos:
Em primeiro lugar, porque não faz o menor sentido julgar as ações de uma criança de 10 anos da mesma maneira que se julga as ações de um adulto. Há de se levar em conta o fato de aquelas crianças terem uma percepção do mundo completamente diferente da nossa.
Em segundo lugar, o(a) professor(a) tem autoridade sobre aquelas crianças. Esta pessoa é designada para, além de ensinar, limitar de certa forma as ações daquelas crianças. Elas não podem, por exemplo, optar por sair da aula e irem para casa, assim como não podem jogar tinta nas paredes da sala ou, ainda, gritar descontroladamente. É desnecessário tentar pensar em tudo que uma criança não pode fazer dentro de uma sala de aula, já que a lista se prolongaria demais.
Em primeiro lugar, porque não faz o menor sentido julgar as ações de uma criança de 10 anos da mesma maneira que se julga as ações de um adulto. Há de se levar em conta o fato de aquelas crianças terem uma percepção do mundo completamente diferente da nossa.
Em segundo lugar, o(a) professor(a) tem autoridade sobre aquelas crianças. Esta pessoa é designada para, além de ensinar, limitar de certa forma as ações daquelas crianças. Elas não podem, por exemplo, optar por sair da aula e irem para casa, assim como não podem jogar tinta nas paredes da sala ou, ainda, gritar descontroladamente. É desnecessário tentar pensar em tudo que uma criança não pode fazer dentro de uma sala de aula, já que a lista se prolongaria demais.
O que importa é que nesse caso, a pessoa
que detém o poder de limitar a liberdade das outras pessoas não
pode abandonar a racionalidade de seu julgamento e não pode ignorar
– tanto por opção quanto por negligência – a perspectiva de
cada uma daquelas pequenas pessoas.
Este exemplo, da relação professor-aluno, é o mais imediato e fácil de entender,já que tanto a relação de autoridade quanto a diferença de percepção do mundo entre as duas parte ficam nítidas. Mas o princípio vale para qualquer caso em que duas partes de um debate não estejam em igualdade de posições, ou seja, vale para qualquer caso em que há uma relação vertical, de dominação, de uma parte sobre outra.
Este exemplo, da relação professor-aluno, é o mais imediato e fácil de entender,já que tanto a relação de autoridade quanto a diferença de percepção do mundo entre as duas parte ficam nítidas. Mas o princípio vale para qualquer caso em que duas partes de um debate não estejam em igualdade de posições, ou seja, vale para qualquer caso em que há uma relação vertical, de dominação, de uma parte sobre outra.
Partindo deste princípio, decidi que tentaria, com toda a
serenidade possível, refletir sobre certas ações da Polícia
Militar, em especial nos recentes protestos contra o aumento da
tarifa de ônibus, mas não restrito a apenas essas ações.
Me
lembro de ter crescido assistindo, além dos desenhos, alguns filmes.
Eu gostava de filmes de ação, aventura, daqueles que mexem com a
adrenalina. A imagem do herói, nobre e honrado, utilizando todos os
meios possíveis para salvar os inocentes, sempre foi muito presente
em tais filmes. Apesar da total ausência de verossimilhança – já
que nesses filmes é muito comum um grupo composto por 2 a 5 pessoas
sair vencedor de um confronto com grupos muitíssimo maiores –,
aquela figura do herói era algo admirável, chegando ao ponto de
personificar um ideal. Os “mocinhos” são quase divindades. Nesse
contexto, não é de se estranhar que tantas pessoas admirem, como eu
admirei por muito tempo, essa figura heróica. Também não é nada
estranho que muitos queiram tornar-se a
própria figura do herói. Tal figura já é impactante nos filmes,
mas é nos noticiários que ela ganha vida. Este relato é bastante revelador.
Quando uma pessoa arrisca a própria vida pela segurança de outra, é um ato louvável. Mesmo.
E eu acredito que seja este o motivo que leva muitos a escolherem a farda como seu uniforme de trabalho. Eu não acredito que os policiais sejam seres cheios de ódio por natureza. Isso seria acreditar que as pessoas tem uma essência intrinsecamente boa ou má, o que é exatamente o contrário da minha opinião. Acredito, sinceramente, que muitos, quando tomam a decisão, pretendem salvar vidas e garantir a segurança geral.
Mas, infelizmente, não é só isso que a Polícia vem fazendo. Nem de longe, aliás. Infelizmente, ao longo do processo de decisão, do treinamento e da guerra diária que vivem os policiais, esta perspectiva vai se perdendo. O ódio tem o nefasto poder de alimentar-se de si mesmo. O princípio da conservação de energia não vale para ele. O ódio se cria e recria a todo instante, na medida em que, a cada confronto violento, o desejo por violência aumenta. E com ódio transbordando pelos poros, a possibilidade de refletir calmamente sobre qualquer situação é nula. E o ódio, quanto mais cresce, menos seleciona seus alvos. Isso pode ser observado até mesmo nos casos mais moderados: quem nunca descontou em uma pessoa querida a raiva gerada por um dia ruim? Ainda, quem nunca foi a tal pessoa querida que sofre com essa raiva? Ou presenciou algo parecido?
O ódio, inibindo a nossa capacidade de reflexão, jamais é benéfico. Jamais. Pode-se argumentar que em certos casos o ódio da forças, como quando impele o soldado na guerra. Argumento que, nesses casos, o que move e dá forças não é o ódio, mas o sentimento de indignação, a vontade de justiça, o medo de um mal maior, a proteção às pessoas queridas. É o que fica nítido em protestos e manifestações por melhores e mais justas condições de vida: aqueles que protestam, indignados, gritam, resistem como podem – quando resistem. Além disso, pedem e oferecem ajuda, choram, correm, se dispersam. Sentem, no peito e no estômago, algo que não cabe em si, o grito que precisa sair. É o que eu não consigo parar de sentir nos últimos dias.
Do outro lado, o da polícia, o ódio salta aos olhos. Isso porque o ódio torna o ser humano frio, maquinal. E é particularmente assustador como esses soldados conseguem olhar nos olhos de pessoas sentadas e desarmadas e desferir, a queima-roupa, tiros de balas de borracha. Como conseguem, sem culpa, fazer com que milhares de inocentes troquem, contra a vontade, o oxigênio por gás lacrimogêneo. Como conseguem marchar ordenadamente batendo nos próprios escudos – e não deve haver ato mais simbólico, mais sintomático.
Quando uma pessoa arrisca a própria vida pela segurança de outra, é um ato louvável. Mesmo.
E eu acredito que seja este o motivo que leva muitos a escolherem a farda como seu uniforme de trabalho. Eu não acredito que os policiais sejam seres cheios de ódio por natureza. Isso seria acreditar que as pessoas tem uma essência intrinsecamente boa ou má, o que é exatamente o contrário da minha opinião. Acredito, sinceramente, que muitos, quando tomam a decisão, pretendem salvar vidas e garantir a segurança geral.
Mas, infelizmente, não é só isso que a Polícia vem fazendo. Nem de longe, aliás. Infelizmente, ao longo do processo de decisão, do treinamento e da guerra diária que vivem os policiais, esta perspectiva vai se perdendo. O ódio tem o nefasto poder de alimentar-se de si mesmo. O princípio da conservação de energia não vale para ele. O ódio se cria e recria a todo instante, na medida em que, a cada confronto violento, o desejo por violência aumenta. E com ódio transbordando pelos poros, a possibilidade de refletir calmamente sobre qualquer situação é nula. E o ódio, quanto mais cresce, menos seleciona seus alvos. Isso pode ser observado até mesmo nos casos mais moderados: quem nunca descontou em uma pessoa querida a raiva gerada por um dia ruim? Ainda, quem nunca foi a tal pessoa querida que sofre com essa raiva? Ou presenciou algo parecido?
O ódio, inibindo a nossa capacidade de reflexão, jamais é benéfico. Jamais. Pode-se argumentar que em certos casos o ódio da forças, como quando impele o soldado na guerra. Argumento que, nesses casos, o que move e dá forças não é o ódio, mas o sentimento de indignação, a vontade de justiça, o medo de um mal maior, a proteção às pessoas queridas. É o que fica nítido em protestos e manifestações por melhores e mais justas condições de vida: aqueles que protestam, indignados, gritam, resistem como podem – quando resistem. Além disso, pedem e oferecem ajuda, choram, correm, se dispersam. Sentem, no peito e no estômago, algo que não cabe em si, o grito que precisa sair. É o que eu não consigo parar de sentir nos últimos dias.
Do outro lado, o da polícia, o ódio salta aos olhos. Isso porque o ódio torna o ser humano frio, maquinal. E é particularmente assustador como esses soldados conseguem olhar nos olhos de pessoas sentadas e desarmadas e desferir, a queima-roupa, tiros de balas de borracha. Como conseguem, sem culpa, fazer com que milhares de inocentes troquem, contra a vontade, o oxigênio por gás lacrimogêneo. Como conseguem marchar ordenadamente batendo nos próprios escudos – e não deve haver ato mais simbólico, mais sintomático.
Enfim,
antes de mais nada, esta é uma tentativa de lembrar a todos que,
independentemente do seu cargo e função, o que determina as suas
ações é a sua razão, o seu senso de justiça. E não posso
acreditar, não consigo e não quero acreditar, que cenas como Estas pareçam justas aos olhos de quem atira.
Quem
se comporta como máquina está sendo operado como uma. Não sejam
máquinas.
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